Carta à redação d'O Globo, sobre a entrevista com Raymundo Ottoni de Castro Maya, por Paulo de Souza, chefe da Seção de Parques Nacionais do Serviço Florestal

Contexto

AcervoMuseus Castro Maya
AutoriaPaulo de Souza
Data20 de Junho de 1945
PublicaçãoO Globo

Documento

"Um homem ressuscita uma floresta"

Do Sr. Paulo de Souza, chefe da Seção de Parques Nacionais, recebemos a seguinte carta, a propósito da entrevista que nos concedeu o Sr. Raymundo Castro Maya, e publicada sob o título acima:

"Sr. Redator d'O GLOBO - Sob a epígrafe supra a edição d' O GLOBO, de ontem, estampou uma entrevista do Sr. Castro Maya, sobre as velhas matas da Tijuca. Lamentavelmente, o autor da entrevista procurou tecer comentários sobre a questão dos Parques Nacionais, dizendo, entre outras coisas, que os nossos Parques Nacionais "não passam de pequenos ensaios, que nada têm a ver com os imensos Parques Nacionais dos Estados Unidos, Canadá, e África do Sul”.

Sobre o assunto cabe-me informar-vos, Sr. redator, que o Sr. Castro Maya está completamente enganado, sob esse ponto de vista. Os nossos Parques Nacionais são tão grandiosos como os dos Estados Unidos, Canadá e África do Sul. Provavelmente entrevistado ignora que o nosso Parque Nacional do Iguaçú possue uma area de 250.000 hectares, junto às cataratas.

Outro ponto que o Sr. Castro Maya também ignora, sobre os nossos Parques Nacionais, é que estamos construindo e já se acha quase pronto, no Parque Nacional do Iguaçú, um grande hotel com 62 apartamentos e todas as demais dependências indispensáveis a um estabelecimento desse gênero. Os demais Parques Nacionais, como da Serra dos Orgãos e do Itatiaia, já tem, também, os seus projetos de construção perfeitamente estudados e tudo isso nos moldes dos Parques Nacionais Americanos e Canadenses.

É ainda lamentável que o Sr. Castro Maya procure confundir um Parque Municipal, como o da Tijuca, com os grandes Parques Nacionais, a ponto de considerar permissível e natural que uma propriedade particular, como a que lhe pertence, na Tijuca, fique encravada numa área destinada ao público. Nos Parques Nacionais dos Estados Unidos e do Canadá isso é absolutamente vedado.

A questão dos Parques Nacionais, entre nós, teve a sua solução retardada pela própria índole de tão vultoso empreendimento. Ninguém ignora, porém, que, em 1876, o ilustre engenheiro André Rebouças, pelo exemplo dos Estados Unidos, preconizou a criação, no Brasil, de parques semelhantes, indicando como lugares apropriados a ilha do Bananal e o Salto de Sete Quedas.

Diz o Sr. Castro Maya que há muito tempo se bate pela idéia da criação do Departamento de Parques Nacionais, e que o seu primeiro ensaio foi em 1937. Ora, o nosso primeiro Parque Nacional, o do Itatiaia, foi criado pelo decreto número 1.713, de 14 de junho de 1937, e posso afirmar, com absoluta convicção, que o Sr. Castro Maya não teve a mínima interferência na idéia dessa criação, que foi obra exclusiva do Conselho Florestal Federal junto ao Sr. Ministro da Agricultura e, este, por sua vez, conseguiu do Exmo. Sr. Presidente da República o decreto de criação acima referido.

Prova evidente de que o Sr. Castro Maya está mal informado quanto à finalidade dos nossos grandes Parques Nacionais é que tanto o Serviço Florestal, como a Diretoria de Obras do Ministério da Agricultura, esta, fazendo os projetos de construção, e aquele, superintendendo a execução dos mesmos, mantêm estreita ligação com os respectivos Serviços dos Estados Unidos e do Canadá.

Aí ficam, portanto, os esclarecimentos indispensáveis para a retificação da entrevista concedida pelo Sr. Castro Maya, que, lamentavelmente, parece ignorar os trabalhos que Serviço Florestal vêm realizando no território nacional. Agradecendo-vos pela publicação da presente, subscrevo-me, cordialmente, (a.) Paulo de Souza, chefe da Seção de Parques Nacionais do Serviço Florestal.

Last updated on September 2, 2022