Contexto
AcervoBiblioteca Nacional
AutoriaManuel Gomes Archer
Data11 de Janeiro de 1891

Relatório dos trabalhos executados na Floresta Nacional da Tijuca de 1º de Janeiro a 31 de Dezembro de 1890

Em desempenho a um dos deveres inerentes a meu cargo, dirijo-vos este Relatório, em que mais desenvolvidamente traçando os processos de administração por mim empregados, tenho ocasião de vos propôr algumas reformas necessárias ao melhoramento d’esta Floresta Nacional, gradiosa instituição que tantos e tão assignalados serviços tem prestado a higieno pública, argumentando e conservando a pureza dos manaciais; e ao mesmo tempo apresentar-vos diversas ideas relativas ao ramo do serviço público que dirijo.

No último relatório por mim apresentado não me foi possível dar-vos uma noção clara e exacta da marcha d’esta administração e do estado em que se achavam os interesses adstritos a ella, pela falta absoluta de dados que orientassem-me o espirito, dando-me base para a avaliação do grau de progressão maior ou menor relativamente aos annos anteriores, e critério mais ou menos seguro para o pragmatico da prosperidade futura. Afastado quinze anos da direção d’esta Floresta Nacional, faltava-me a orientação do movimento havidos nos ultimos tempos nesta Repartição, e foi depois de rapido exame nos serviços a meu cargo que apresentei-vos um relatório, pouco tempo após minha posse, em que vos dava conta do estado em que achei as mattas, o número aproximado das arvores de lei, feito por um calculo a ratione as classes a que pertenciam na

Hoje, porém, renovando o sistema de administração já por mim aqui empregado, e conhecendo o verdadeiro estado de progresso em que se acha a Floresta Nacional da Tijuca, é me grato dar-vos uma notícia mais desenvolvida, uma descrição mais completa e mais circunstanciada dos bens e interesses, que caem na alçada da função pública de que fui investido pelo Governo Federal. Orgulho-me em vez que os trabalhos de silvicultura, por mim iniciados neste local em 1862, tenham progredido em marcha regular e metódica e prometam chegar em breve tempo a um desenvolvimento tal, que elevem esta Florestsa a um lugar saliente entre as instituições congêneres. Não preciso repetir as vantagens, que auferem das instituições florestais as regiões, em que são estabelecidas, pois que são patentes e estão no entendimento de todos – lugares doentios e insalubres adquirem após o seu estabelecimento um invejavel grau de salubridade, climas torridos insuportáveis transformam-se completamente pela moderação pronunciada do calor e pela amenização da extraordinária secura, própria das estações quentes; além disso devemos encarar as florestas como um paradeiro à impetuosidade dos ventos constantes que minam em certas zonas e como proteção e resguardamento aos manaciaes, como valioso e irrefutável senho da perpetuidade e pureza das fontes, que supriram a população numerossivivam de um elemento tão essencial a vidade e que influade uma maneira tão eficaz na higiene pública.

Seria convenientíssimo que o Governo da República, estudando escrupulosamente o assunto, submetendo-o ao juízo dos profissionais, considerando os grandes interesses sociais em jogo, criasse florestas nacionais nas cabeceiras dos rios, que fornecem água as cidades da república e sobretudo daqueles que abastecem esta capital federal; prestaria mais um valioso serviço à causa pública o patriótico Governo Provisório se criasse florestas nacionais em lugares como as serras do Rio do Ouro, Mendanha, Gávea, etc – o estabelecimento da terceira floresta nacional em Jacarepaguá já foi um grande passo nesse sentido.

Não basta, porém, a simples fundação desses estabelecimentos de criação vegetal, o plantio e cultivo material sem atenção às regras científicas, sem a direção sistemática dada aos trabalhos, cumpre alias à pratica e à experiência o conhecimento técnico, a educação científica dada aos cultivadores.

Daí decorre a necessidade, já por mim patenteada em meu relatório de 1873, da criação de institutos de ensino florestal, modelados nos congêneres existentes nos países europeus, onde os cultivadores bebesem os conhecimentos técnicos, rudimentos de botântica, sua aplicação prática e a arte da silvicultura–institutos de onde saíssem com uma orientação mais ou menos perfeita dos principios científicos, que regem o plantio, a cultura, a classificação das árvores, e dos processos, que servem para torná-las modelos da espécie, forma do solo que as gerou e que as possue e dos que dirigiram o seu desenvolvimento.

Necessidade urgente é também a reforma ou antes o estabelecimento de uma legislação florestal, que substitua as instituições provisórias, que ainda presidem esta administração, para que haja verdadeira sistematização nos trabalhos e perfeita regularidade e para que seja posto um anteparo ao aniquilamento das matas.

As florestas nacionais são um protesto à devastação horrorosa das matas pelo fogo, conforme o sistema dos nossos agricultores, que querendo poupar tempo e trabalho, entregam o terreno destinado à cultura à ação furiosa das chamas, que destroem até certo ponto o vigor produtivo do solo, aproveitando os caules, já em parte carbonizados, das árvores para factura do carvão, que tem-se tornado o principal, senão o único, produto que fornecem as freguezias suburbanas ao mercado fluminense.

Debalde a imprensa criteriosa e independente reclama, inuteis os esforços e propaganda de alguns dos nossos homens públicos; a devastação continua, o fogo impera como elemento primordial do trabalho, e as florestas, verdadeiros pulmões dos centros populares, desaparecem, vítimas da cobiça desregrada dos seus proprietários.

A inércia encontra no mercado do carvão um incentivo, lucros vantajosos coroando trabalhos diminutos, e como consequência lógica, veio esta devastação inconciente das florestas, não para a aplicação do solo à agricultura, mas para a extração de árvores, com as quais erguem as numerosas caieiras, que diaramente fumegam nas freguezias rurais.

Com as florestas nacionais formar-se-ão como que retudos inexpugnaveis, caso continue a invasão que ameaça todas as matas, que tão necessarias nos são, que tantos serviços prestam à saúde do povo, quer modificando o clima, amenizando as estações calorosas, quer conservando a existência e pureza das águas, que servem ao consumo público.

Voltemos à floresta nacional da Tijuca. Conforme já vos fiz ciente no meu relatório semestral, ordenei e fiz executar que fossem obstruídas cerca de mil aberturas, que existiam no local desta floresta. Assim procedi pelos inconvenientes gravissos que causavam, convindo salientar serem um perigo iminente, uma ameaça constante a higiene deste lugar visto transformarem-se em depósito de águas, que se putrefaziam, tornando-se perigosos focos de infecção. Exige ainda a salubridade deste lugar que o governo providencie para que se efetue o encanamento das águas do açude de Antonio Joaquim, que na estação calorosa tornam-se lodosas, com extalções pútridas – terríveis elementos para o desenvolvimento de febres de mau carater, que serviriam de argumento aos que atacam a salubridade deste local. Mormente na atualidade ainda mais salientar-se a necessidade do encamamento dessas águas, pois que pouco abaixo do açúde, no lugar denomidado Cachoeira, funcionava um colégio, que dá o pão espiritual a grande número de crianças, arancando-as das trevas da ignorância, afim de tornalos úteis a sociedade em que vivem e afetas fiara expresarem-se pelo desenvolvimento da pátria–colégio esse, que honra demasidado aos seus instituidores e que tantos e tão bom serviços vai prestar ao país.

Ainda, como já fiz ver no meu relatório de 8 de Janeiro de 1890, torna-se necessária a desapropriação dos terrenos, sito na Cascatinha, pertencentes aos herdeiros do Conde de Mesquita e do Barão de Taunay, pois que, servindo de transito às águas encanadas das fontes desta Floresta, que servem ao consumo público, é impossível evitar que, nesses terrenos particulares, sejam nellas lançadas matérias orgânicas em putrefação, deleteria à saúde pública–atacando a sua pureza e conservação, que são a valiosa garantia da higiene de uma cidade.

Demais, nad aimpede que as matas desse local tenham o mesmo destino que estão tendo as das freguezias rurais, devastadas para a factura do carvão–e nesse caso teriamos o triste resultado da diminuição desses manaciais, que tanto valem e o desaparecimento da beleza natural da esplendorosa e histórica Cascatinha.

Os trabalhos no ano findo constaram do seguinte:

Sementeiras

Continuaram os trabalhos das sementeiras, durante o ano, sendo feitos com toda a regularidade e cuidado para a conservação das espécies de árvores de lei que existem nesta Floresta. Foram aumentados os canteiros destinados às sementeiras e há atualmente grande quantidade de plantas germinadas, aptas para serem transportadas para viveiros. Tenho desenvolvido toda a solicitude nesse ramo de serviço, que a meu ver é importantíssimo, podendo ser encarado como a base dos trabalhos florestais.

Viveiros

Foram transportadas das sementeiras para cestinhos de taquara cheios de terra convenientemente extrumada sete mil cento e dez mudas de árvores de lei das qualidades seguintes: louro pardo, 844; oleo pardo de copahyba, 743; vinhatico, 836; oleo de copahiba, 44; Santa Luzia, 840; Jacarandá cabina, 380; araribá, 580; mirindiba, 225; eucalyptus, 1241; oleo vermelho, 40; oleo vinhatico, 43; ipê tabaco, 326; guarajuba, 83; paineiras, 157; cangerana, 20; canella amarella, 29; genipapo, 229; ipê caboclo, 80; Fizeram-se 9.310 cestinhos de taquara para os viveiros.

Plantações

Plantaram-se em terrenos preparados nos claros da floresta, de 1º de Janeiro a 31 de Dezembro, 18.299 mudas de árvores de lei, cuja classificação e número constam do mapa anexo, ficando assim elevado o número de árvores de lei desta floresta a cerca de 90.000.

Limpas

Limparam-se durante o ano cuidadosamente cerca de 81.000 árvores de lei das antigas e modernas plantações, desembaraçando-as de mato bravio, que crescendo-lhes em torno lhes tolhiam o desenvolvimento.

Covas tapadas

Foram obstruídas durante o ano passado cerca de mil covas, que existiam abertas neste local e de cujos incovenientes trato no princípio deste relatório.

Cercas

Para sanar o perigo proveniente da existência de diversos pereificio beira dos caminhos, foram feitas cercas de madeira rústica, medindo de extensão 113m sobre 1,20m de altura.

Conservação e abertura de caminhos

Conservaram-se todos os caminhos, que atravessam a floresta, medindo cerca de 24 kilometros de extensão. Nesta conservação estão incluídos também os trabalhos feitos na estrada da cascatinha, hoje a cargo desta administração, na qual, além da conservação geral, alargaram-se duas curvas afim de facilitar o transito dos carros.

Este trabalho executado em pedra(?) mede em uma das curvas 30m de comprimento sobre 1,25m de grossura e 2,30m de altura e em outra 20m de comprimento sobre 1m de grossura e 2m de altura. Abriu-se um novo caminho que, partindo da casa da administração vai terminar na praça Quinze de Novembro, medindo este em toda extensão 540m, sobre 3,70m de largura e com 2m mais ou menos de altura; nesse caminho fizeram-se 19 boeiros revestidos de pedra. Executaram-se mais 4 boeiros revestidos de pedra em diversos pontos para escoamento das águas e reconstruiu-se cerca de 500m com 3m de largura do caminho, que vão do açude a Taquara, na parte que atravessa esta Floresta.

Além desses trabalhos, prossegue-se na construção de um novo caminho, que, partindo do pátio da Floresta vai entroncar com o caminho do Pico da Tijuca, medindo parte do leito, que está pronpto, 180m, sobre 3m de largura e tendo de aterro 0,30m na media em toda extensão.

Obras

Construiu-se uma ponte no caminho, que vai do açude a Taquara, tendo 4,80m de comprimento por 3,15m de largura, sendo os pregões construídos de pedra e cimento, medindo, inclusive as cortinas, 20m correntes com a media de 2m de altura e 0,40m de expessura.

Prédios

Quanto aos próprios nacionais, que existem nesta Floresta, tenho a vos relatar que desenvolvi os maiores cuidados na sua conservação, mandando fiscalizar excrupulosamente aqueles que são habitados por empregados desta repartição e zelando continuamente pelo que se acha desabitado. Pondo de parte o prédio desta administração, fazem

se necessários diversos concertos nos outros prédios e seria conveniente que o Governo nos facultasse meios para que eles fossem efetuados.

Pessoal

Cumpre-me chegar ao vosso conhecimento, como medida urgente, para o bom andadmento dos negócios desta repartição, a necessidade de ser modificada a tabela de vencimento que é a mesma de há vinte anos, principalmente na parte referente à diária dos trabalhadores.

A tabela é a seguinte: Administrador 2550$000 Escrevente (diária) 3$500 Feitor (diária) 2$500 Trabalhadores (diária) 1$700

A exemplo das outras repartições públicas onde tem-se dado o aumento de vencimento, é de esperar que seja atendida a necessidade de elevação de salário aos trabalhores desta Floresta. Sem isso, nunca poderei dispor senão de um mau pessoal, pois que os bons operarios não se sujeitam a percepção de 1$700 reis diários, quando fora desta Floresta facilmente ganham 2$400 reis e mais.

Despezas

A verba concedida pelo Orçamento em vigor do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas para o custeio desta Floresta Nacional é de 23590$000.

A despeza do ano passado de assim descriminada Pessoal da Floresta 11:437$650 Pessoal da conservação dos caminhos 9:089$000 Utensilios, materiais, trato dos animais e compra de um para o serviço 1:576$953 (Total) 22:103$603 Saldo 1:486$397

Eis, pois, aí retratado o estado da Floresta Nacional da Tijuca e descritos os trabalhos que sob a minha administração, nela se efetuaram

no ano próximo passado; e terminando, peço-vos que me releveis a franqueza com que exprendi os meus pensamentos, relativos ao ramo de serviço público que dirijo–filha exclusivamente da boa vontade, que tenho de servir ao pais e do desej, que nutro de que prosperem os interesses nacionais, que caem sob a minha inspeção.

Saúde e Fraternidade

Floresta Nacional da Tijuca, 11 de Janeiro de 1891

Manuel Gomes Archer

Mapa demonstrativo

Mapa demonstrativo das árvores plantadas na Floresta Nacional da Tijuca de Janeiro a Dezembro de 1891

Last updated on September 16, 2022