Relatório da Administração da Floresta da Tijuca, em 10 de Janeiro de 1875, por Gastão d'Escragnolle

Contexto

AcervoCenter For Research Library
AutoriaGastão d'Escragnolle
Data10 de Janeiro de 1875
PublicaçãoRelatório do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas

Documento

Administração da Floresta da Tijuca, em 10 de Janeiro de 1875

Relatório

Em cumprimento do disposto no Regulamento provisório pelo qual é regido este estabelecimento tenho a honra de apresentar o relatório dos trabalhos florestais executados durante os poucos meses decorridos desde a minha nomeação.

Ao tomar posse do lugar de Administrador desta floresta, uma das coisas que mais me impressionaram foi considerar as dificuldades com que teria de lutar o meu muito digno antecessor, o Sr. Manoel Gomes Archer, para obter, com tão diminuto pessoal, tão mal remunerado e em terreno tão ingrato como o da Tijuca, o resultado que apresentou ao deixar este estabelecimento.

A sua ativa e inteligente administração, que será sempre lembrada, facilitou a minha tarefa pois encontrei os viveiros amplamente providos de plantas preciosas, já mudadas e de grande cópia de outras que mandei passar para os cestinhos afim de substituir as que são definitivamente plantadas nas matas.

Achando conveniente guardar a devida proporção entre o serviço a fazer e o pessoal, em extremo diminuto de 1 feitor e 22 trabalhadores, não tenho querido estender as plantações, o que seria no entanto da maior vantagem, como já tantas vezes tem sido repetido, quer para o aumento do volume das águas que abastecem a nossa capital, quer também para a utilidade que presta aos grandes centros populosos a vizinhança das florestas.

Com tão minguado número de trabalhadores tenho-me limitado a arborizar os lugares mais elevados e os mais estéreis, abrindo covas profundas que ficam expostas por algum tempo, à ação benéfica do ar e da luz e assim vão criando um depósito de fertilidade que nutre a planta em seus primeiros anos. As inúmeras vantagens que alcança o silvicultor assim procedendo são manifestas. Com efeito, os trabalhos de sabios como Boussingault, Sainte-Claire Deville, Barral e muitos outros não deixam a menor dúvida que o ar e as águas da chuva disseminam sobre a superfície da terra quantidades consideráveis, muito mais do que vulgarmente se pensa, de matérias gasosas, líquidas, salinas e outras substâncias fertilizantes. É preciso porém que a terra esteja preparada para absorver os gases, os líquidos, o calor e a luz e para só reter o que convém. Consegue-se plenamente este resultado pelo sistema há pouco indicado. Desse modo aproveita-se os recursos oferecidos pela natureza em toda a parte, recursos tais que, sabendo-se tornar manifestas as suas energias de ordinário latentes, dispensam-as no mais das vezes o ter de recorrer a gastos, elevadíssimos no caso do estabelecimento que tenho a honra de dirigir, de compra e transporte de materiais estranhos ao solo em que se opera.

Sementeiras

Todos os canteiros dos viveiros junto à casa do ex-Administrador contém grande quantidade de mudas de differentes árvores de lei, algumas provenientes de sementes confiadas à terra, por aquele zeloso empregado, outras já semeadas por mim; todas apresentam o melhor aspecto e só aguardam mais alguns meses para serem transplantadas para os cestinhos; um destes canteiros recebeu algumas sementes da árvore que, com o nome de Sucrajú, foram remetidas ao Ministério da Agricultura com especial recomendação, de Santa Catarina, pelo Sr. Dr. Blumenau; até a presente data ainda não germinaram e nem é de admirar pelo pouco tempo decorrido.

Existindo viveiros apenas em um ponto da floresta, o que dificulta a arborização dos lugares remotos, representei ao Sr. Engenheiro do 3º Distrito, a quem está subordinado este estabelecimento, sobre a conveniência de criar diferentes centros para depósito das mudas e sendo atendido o meu pedido construiu-se um espaçoso viveiro junto à casa da atual administração o qual ficará concluido até o fim do corrente mês e ali será aproveitado o grande número de sementes que possuímos e as que nos são mensalmente fornecidas pelo encarregado dessas colheitas. Este empregado, que aliás, cumpre conscienciosamente sua tarefa, não pode estender o círculo de suas excursões além das matas da Guaratiba e por esta razão suas remessas pecam, às vezes, por falta de variedade, sobretudo se atendermos à riqueza imensa de nossas matas virgens. Se aprouvesse ao Governo ordenar aos seus delegados nas Províncias, ou apelar para o patriotismo dos Srs. Senadores e Deputados, com diminuto dispendio e em pouco tempo se acharia a fioresta da Tijuca enriquecida com uma variada coleção de árvores de lei, aproveitando as Províncias o conhecimento de seus tesouros florestais.

Durante a minha administração que comecou a 17 de Julho do ano findo, passaram dos viveiros para os cestinhos 3.295 plantas, mudaram-se dos cestinhos velhos para novos 2.125, cujas qualidades já foram mencionadas nos meus relatórios mensais e fizeram-se 5.254 cestinhos. Abriram-se 3.429 covas com cerca de um metro de profundidade e outro tanto de largura; nestas, convenientemente preparados com adubo vegetal (detritos de floresta) já foram transplantadas 282 árvores. Plantaram-se em terreno não preparado, em substituição de outras que morreram, 1.402 árvores. Reparou-se a muralha que circunda o terreno em frente à casa da administração, dispondo-o assim a servir mais tarde de espaçoso viveiro logo que o Governo julgar conveniente alargar o serviço a meu cargo.

A escrituração e a contabilidade desta administração estão em dia e tem sido feita com asseio e regularidade.

Com o pessoal, composto de 1 feitor e 22 trabalhadores, despenderam-se de Julho a Dezembro do ano findo seis contos seiscentos e sessenta mil e quatrocentos reis, 6:660$400.

Tratando do pessoal não posso deixar de ponderar que o salário de 1$500 diários, concedido aos trabalhadores da floresta é evidentemente insuficiente; só o hábito pode explicar a permanência de alguns que sem dificuldade achariam fora do estabelecimento melhor remuneração, tanto mais se se atender que seus companheiros de trabalho, os da conservação dos caminhos, são mais bem aquinhoados. Compreende-se a conveniência de reter homens que se acham já educados no trato, todo especial, das plantas e que só se consegue depois de longa prática.

Cumpre-me também chamar a atenção sobre a insuficiência do pessoal, já não digo para empreender novos trabalhos mas tão somente conservar o que existe (22 homensalém do feitor) daquele número deve-se atender que estão ocupados na colheita de sementes 1, na escrituração 1, como carroceiro 1, no trato dos animais 1, exclusivamente ocupados nos viveiros 2; se ainda deduzirmos as faltas por moléstia ou outro qualquer motivo, teremos um efectivo de 12 homens apenas, com o qual é absolutamente impossível cuidar das árvores já plantadas e que tanto precisam ser protegidas nos primeiros anos. Propondo o número de 30 homens além do feitor, como reiteradas vezes foi pedido pelo meu antecessor, fico ainda aquém do necessário, pois que o serviço tem aumentado e tende sempre a aumentar como convém para a prosperidade do estabelecimento.

Os dois animais do serviço da floresta tem sido bem tratados e acham-se em condições de ainda prestar serviços.

É de absoluta necessidade regularizar o pagamento dos cestinhos, assim como a ferragem dos animais, o modo por que é feito hoje é o mais inconveniente possivel.

Fizeram-se no período de minha administrirão 5.254 cestinhos.

Caminhos

O serviço da conservação e reparação dos caminhos, boeiros, etc., está a cargo de um empregado da floresta, debaixo de minha imediata inspeção.

O que acima disse acerca da floresta tem igual aplicação quanto à conserva: o seu pessoal composto de 1 condutor, 9 trabalhadores e um guarda é insuficiente; com tão pouca gente é impossivel obter-se serviço regular, e muito menos encetar um sistema de viação através da mata, ligando entre si os diferentes pontos da floresta, como tanto conviria para facilitar o tratamento das árvores.

Com o pessoal da conserva despendeu-se de Julho a Dezembro do ano que findou 3:539$100, três contos quinhentos e trinta e nove mil e cem.

São estes os trabalhos executados durante cinco meses e poucos dias de minha administração, contrariado sempre por chuvas incessantes; submeto-os ao juízo do Governo que avaliará em sua sabedoria se justificam a confiança com que fui honrado de dirigir este estabelecimento.

Gastão d’Escragnolle,

Administrador.