Silvicultura brasileira: Trabalhos da Floresta Nacional da Tijuca, por Miguel Antonio da Silva

Contexto

AcervoBiblioteca Nacional
AutoriaMiguel Antonio da Silva
DataSetembro de 1870
PublicaçãoRevista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, n.5

Documento

Silvicultura brasileira: Trabalhos da Floresta Nacional da Tijuca

Por Miguel Antonio da Silva

De tão grande utilidade é a floresta estabelecida pelo governo, sob a administração da inspetoria das obras públicas, na serra da Tijuca, que qualquer elogio nosso, encarecendo-a, estaria sempre aquém do seu mérito real.

Entretanto, uma obra tão credora de admiração, tão prometedora de riqueza, parece jazer esquecida, senão ignorada do público, qual diamante de subido quilate, perdido entre as pedras do corrego. Não pode a Revista Agrícola confirmar, calando-se, este injusto silêncio. E para que o publico conheça o que é, e o que vale, a floresta da Tijuca, vamos apresentar em breves traços a notícia histórica de sua criação, e dos importantes trabalhos que empregados zelosos tem feito para converter as encostas estéreis da serrania da Tijuca em copado arvoredo, composto das mais belas e variadas espécies de nossas árvores de construção, ornamentos das nossas florestas virgens, e que vão desaparecendo, de dia em dia, ante os golpes mortíferos do machado, auxiliado pelo tição de fogo.

Em Janeiro de 1862, iniciou-se os primeiros trabalhos da formação desta floresta, pondo-se em execução as instruções provisórias de 11 de Dezembro de 1861, feitas pelo Sr. conselheiro Dr. Manoel Felizardo de Souza e Mello, de saudosa memória. Quatro africanos livres, três dos quais de idade avançada foram os auxiliares para esse trabalho; postos à disposição pelo ministério da agricultura. Em Maio do referido ano foi o pessoal de trabalhadores elevado a 11, e nesse número conservado todo o ano.

Durante o ano de 1862, plantou-se 13.617 mudas de árvores, das quais não vingaram 3.398, conservando-se portanto 10.219, que medraram.

O método empregado naquela época, no plantio das árvores, era o seguinte: depois de roçado o mato e preparado o terreno, destinado para a plantação, abriam-se covas com profundidade conveniente para receber as mudas, e distantes umas das outras dos intervalos necessários.

Das matas circunvizinhas eram arrancadas as arvorêtas, que tinham de ser transplantadas, as quais, segundo as instruções, deviam ser do tamanho de 1.10m a 1.32m, pouco mais ou menos.

As arvorezinhas sendo tiradas dos arredores, às vezes de grande distância, de terrenos alcantilados e escabrosos, onde á custo se ia ter, chegavam ordinariamente ao solo, onde deviam ser plantadas, em tal estado de mau trato, que lhes avizinhava muito o termo de sua existência, como de fato se verificava pela grande mortalidade que sofriam as mudas, transplantadas nestas condições.

Durante o ano de 1863, não havendo ainda sementeiras, nem viveiros, proseguiu ainda o mesmo processo imperfeito de arrancar as mudas nas matas circunvizinhas, procurando-se todavia minorar tanto, quanto possível, o método já por si vicioso; nesse ano, foram plantadas 4.829 mudas de árvores, das quais deixaram de vingar 1.029, e medraram 3.800. Os trabalhadores empregados neste serviço, no ano de 1862, não excederam à 20, inclusive os africanos, já mencionados, que pouco faziam, por grande número de anos que lhes pesava sobre a cabeça.

Em 1864, as mudas plantadas subiram ao número de 5.034, das quais escaparam 4.436, morrendo apenas 599. O número de trabalhadores, nesse ano, foi de 16, termo médio.

Em 1865, plantou-se 12.451 mudas; morrerão 4.489 e crescerão 7.562.

Do mês de Janeiro ao de Setembro, foram empregados 19 trabalhadores, termo médio, e de Setembro até ao fim do ano somente 7.

Do mês de Janeiro de 1866 em diante o pessoal foi reduzido, por ordem da Inspecção Geral das obras Públicas, a 4 trabalhadores, inclusive o feitor. Esta redução, motivada, por certo, por economia, veio paralizar o incremento, que a nascente instituição ia tomando, e é tanto mais de lastimá-la, tão severa economia, quanto ela ocasionou a perda quase total de tantos esforços já adquiridos desde o ano de 1862, e nessa perda vai incluída também a soma pecuniária despendida. Com essa diminuição no pessoal da floresta, a maior parte das árvores morreram à mingoa de tratamento. Entretanto, apesar de pessoal tão diminuto, plantou-se 3.120 mudas de árvores, das quais morreram 2.999; o que não é de estranhar, atenta a economia.

No seguinte ano, de 1867, foram plantadas 6.238 mudas; destas deixaram de medrar 5.411. Note-se que de Janeiro a Junho desse ano o pessoal custou dos mesmos 4 trabalhadores, sendo de Junho em diante elevado ao numero de 10.

Demonstrada praticamente a imperfeição e inconvenientes do sistema até então empregado no plantio e conservação da floresta, e por outro lado não se tendo podido obter sementes das mais estimadas de nossas madeiras de lei, para formar as sementeiras e os viveiros, tratou a administração daquela floresta de modificar o sistema adotado, de modo a torná-lo senão perfeito, ao menos mais proveitoso. Assim, em vez de colher-se das matas vizinhas mudas de 8 a 15 anos e transplantá-las diretamente para os lugares onde deveriam permanecer, tomou-se o alvitre de escolhe-las de 1 à 2 anos de idade, isto é, tendo de 0.22m a 0.33m (1 a 11 / palmo) de altura, e plantá-las em cestos, onde fossem conservadas, e adquirissem certo desenvolvimento até o momento de serem plantadas nos sítios escolhidos, enterradas juntamente com os cestos.

Tal foi a modificação no processo, e que logrou o melhoramento que se tinha em vista com o serviço da floresta. No ano de 1868, plantou-se 7.447 mudas naquelas condições, das quais muito poucas deixaram de vingar. O pessoal empregado neste serviço, durante o ano de 1868, constava de 12 trabalhadores e de um feitor.

Em Janeiro de 1869, tomou a administração da floresta a resolução de empregar um dos trabalhadores na colheita exclusivamente de sementes das mais apreciadas especies de árvores de construcção, em cujo serviço percorre continuamente as matas de Jacarepaguá e da Guaratiba, e de 15 em 15 dias volta trazendo larga cópia de sementes.

Por este meio, conseguiu-se formar grandes sementeiras em viveiros convenientemente dispostos e tratados, de onde as plantas, depois de certo crescimento e vigor, são arrancadas cuidadosamente e transferidas para cestos, onde permanecem o tempo necessario para desenvolver-se; e finalmente são enterradas com os próprios cestos nos pontos do terreno designados. Ótimos resultados vieram confirmar a já conhecida bondade das sementeiras e formação dos viveiros na cultura das árvores florestaes: único método que completará as vistas do governo neste assunto, qual é preencher dentro de poucos anos os claros da floresta com árvores frondosas, futuro depósito de madeiras para as construções civil e naval.

Durante o ano de 1869, plantou-se 10.558 mudas de diversas árvores, fornecidas pelas sementeiras; nesse mesmo ano, existiam nos viveirss e já passadas para os cestos 3.000 mudas, e nas sementeiras para cima de 10.000. Muito poucas plantas morreram.

De 1862 até o fim de 1869, foram plantadas na floresta da Tijuca 55.519 pés de árvores de lei, das quais pereceram 27.811. (Relatório do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, 1870, pag. 168.)

O emprego do mesmo método continuou a produzir no corrente ano resultados idênticos; e de ano em ano, assim ousamos esperar, graças aos esforços da zelosa administração, a Floresta da Tijuca vai marchando em progressivo desenvolvimento e promete vir a ser a fiel depositária dos mais belos representantes arbóreos da nossa flora grandiosa, tão cruelissimamente rareada aos golpes do machado; será um legado precioso às gerações que vão desfilar sucedendo umas às outras, as quais, assim, conhecerão e tirarão proveito das variadíssimas árvores de lei que nos doou a natureza, e não por simples notícia ou tradição, como essas raridades paleontológicas, que atestam a grandeza das épocas extintas.

As gerações vindouras cobrirão de bençãos aos seus ascendentes, pelo zelo e previdência que empregaram, como a atual lástima à negligência e imprevidência de seus maires a muitos respeitos, e venera-os no pouco que nos legaram de bom.

A utilidade das florestas nas cercanias das cidades é de toda a evidência; o benefício que delas provêm é inestimável com relação ao fenômeno meteorológico das chuvas, cuja frequência e regularidade elas operam, podendo-se considerá-las como o regulador desses fenômenos. Ora, se assim é, em tese geral, como provam-no os fatos, e o cuidado que empregam todos os povos civilizados em estabelecer florestas e plantações de arvoredo nos arredores e dentro das povoações, como não a exigirão, com mais instância ainda, as cidades, tais como a capital do Império, situadas entre os trópicos, dardejadas pelos raios intensos do sol abrasador dos meses de verão?

Em nossa opinião, o belo exemplo fornecido pela Floresta Nacional da Tijuca deveria ser seguido e aplicado em diversos outros pontos das montanhas, que cercam a nossa capital, e que se vão escalvando com a derrubada do arvoredo para fabricar carvão; das montanhas deveria descer o plantio das árvores para as praças, para as ruas mais largas, e principalmente as que seguem ao longo do litoral.

São tão conhecidas as vantagens higiênicas que resultam das árvores sobre a salubridade pública, que não cansaremos o leitor, escrevendo-as; lembraremos unicamente que a falta de água, que sofre a cidade do Rio de Janeiro, cuja principal causa é a imperfeição das obras que a recolhem incompletamente, tenderia a aumentar de volume com as florestas que cobrissem suas nascentes.

E, por falar nessa questão, de vital interesse para a capital do Império, cumpre, por dever de justiça, consignar nas páginas desta Revista a bela série de artigos, que sobre o abastecimento de água desta cidade publicou ultimamente, no Jornal do Comércio, um ilustrado professional sob o pseudônimo de Aquário: esses artigos magistrais, inspirados pelo interesse, que sempre desperta nos bons espíritos a discussão das questões de atualidade que se prendem à utilidade pública, é um tesouro de imenso valor, e que deverá ser consultado sempre, tanto pelo administrador como pelo homem professional, quando se tratar, seriamente, de resolver o problema de abastacimento de água da capital.

Ao terminar esta notícia sobre a Floresta da Tijuca, apresentaremos ao reconhecimento do público, que bem o merece, os nomes dos zelosos encarregados daquela floresta, a cujos esforços e perícia se deve o alto grau de desenvolvimento em que se acha: os Srs. Majores Dr. Francisco José de Freitas, Ajudante do 3º distrito, e Manoel Gomes Archer, Administrador da Floresta da Tijuca, aos quais devemos estas informações.

Espécies

As especies de árvores de construcção, plantadas naquela Floresta, constam da seguinte relação.

  • Acácia (gen. Acacia.)
  • Angelim rosa (gen. Andira.)
  • Arapóca (Galipea dichotoma.)
  • Ariribá (Centrolobium robustuin.)
  • Arco de pipa (Erythroxilon utilissimum.)
  • Bicuiba (Oleo de) (Myristica officinalis. )
  • Brasil (páo) Cesalpinia eclamata.)
  • Canella (gen. Nectandra.)
  • Cabuy-vinhatico (Enterolobium latecens.)
  • Cangerana (Cabralea cangerana.)
  • Catiguá.
  • Catucanhé (gen. Rhopala.)
  • Cedro rosa (Cedrela brasiliensis.)
  • Copahiba (Oleo de) (Copaifera officinarum.)
  • Copahiba vermelha (Oleo de) (Copaifera officinarum.)
  • Eucalypto (da Nova Hollanda) (gen. Eucalyptus.)
  • Grapiapunha (Apuleia polygamia.)
  • Graúna (Melanoxylon Brauna.)
  • Guarajuba, (Vicentia acuminata.)
  • Guarubú (Peltogyne guarubu.)
  • Imbriú (Guatteria alba.)
  • Ipé (gen. Tecoma.)
  • Jacarandá (gen. Machorium.)
  • Jaqueira (Artocarpus integrifolia.)
  • Jatahy (Oleo de) (Hymenaca stilbocarpa.)
  • Jequitibá (Curatary legalis.)
  • Jundiahiba (gen. Terminalia.)
  • Larangeira do mato (gen. Esenbekia ?)
  • Louro pardo (Cordia frondosa.)
  • Massaranduba (Mimusops clata.)
  • Milho cosido (gen. Licania.)
  • Muriçi (gen. Byrsonima.)
  • Oleo pardo (Myrocarpus frondosus.)
  • Oleo vermelho (Myroxylon peruiferum.)
  • Páo ferro (Cesalpinia ferrea.)
  • Pequiá (gen. Aspidospermum.)
  • Sapucaia (Lecythis olaria.)
  • Sepipiruna (Bowdichia major.)
  • Tapinhoam (Silvia navalium.)
  • Ubapeba (gen. Lucuma.)
  • Ubatan (gen. Astronium.)
  • Uity (Soaresia nitida.)
  • Urucurana (Hyeronima alchornioides.)
  • Vinhatico (Echyrospermum Balthasarii.)
  • Xixá (Sterculia fetida.)

Destas árvores de lei as que maior desenvolvimento tem tido são as seguintes:

  • Angelim rosa
  • Arco de pipa
  • Cangerana
  • Catucạnhé
  • Cedro
  • Louro
  • Oleo de copaiba
  • Oleo pardo
  • Oleo vermelho
  • Páo ferro
  • Sapucaia
  • Urucurana